Será que é possível alimentarmo-nos do mar de forma sustentável?

  • O Oceano desde sempre fascinou os seres humanos, à volta dele foram criadas histórias, mitos e fantasias que ainda hoje alimentam a imaginação de quem tem a oportunidade de ver e sentir de perto ou mesmo de longe o mar.

    Infelizmente a extração excessiva ao longo do passado século e continuando até hoje está a acabar e já acabou com stocks de organismos que fazem parte de um todo do qual nós também fazemos parte.

    Haverá sempre captura, haverá sempre o predador e a presa, no entanto é nossa responsabilidade não destruirmos o futuro e termos formas de minimizar o impacto neste Planeta (ainda) Azul.

    Neste sentido, a aquicultura vem ajudar. Como é óbvio devemos ser críticos e tal como em tudo há a boa e a menos boa aquicultura.

    Felizmente o projecto da Oceano Fresco enquadra-se no sector positivo da alimentação. Porquê?

    Por um lado porque se trata de aquicultura de bivalves, que tem um menor impacto ambiental, por não utilizar químicos nem rações artificiais, e ter uma função filtrante, que captura e utiliza CO2 na formação das conchas. Além disso, iremos cultivar as espécies europeias de amêijoas, cujas populações têm diminuido muito no meio natural devido à monocultura de uma espécie invasora de origem asiática.

    Por outro lado, pela origem da semente de amêijoa, que não é extraída do seu meio natural mas sim criada na maternidade da empresa, finalizando o seu crescimento até o tamanho adulto no mar aberto do Barlavento Algarvio, conhecido pelo seu bonito lado selvagem que proporciona uma experiência inolvidável em termos de paisagem e de degustação dos saborosos produtos do mar.

    Neste caso, as amêijoas irão crescer num viveiro em mar aberto. Sim, no mar!! E mais do que aberto, pura e simplesmente livre e selvagem. O que torna toda a experiência de cultivo mais dinâmica e interessante.

    De forma simples, imaginem que são uma gaivota a planar no vento norte característico da região oeste algarvia e que ao olhar para baixo vê um grande quadriculado, onde nas extremidades temos a ancoragem e tudo o resto está submerso. Visto de lado, como se de um golfinho nos tratassemos, veríamos um simples cabo que vem do fundo onde se encontra o sistema de ancoragem e que perto da superficie fica na horizontal.

    Nesta zona de cabo horizontal colocamos as chamadas lanternas chinesas que no seu interior mantêm a semente de amêijoa e é onde se dá a magia. Primeiro porque vemos um grão de areia a se tornar numa deliciosa amêijoa adulta e segundo porque até que isso aconteça há todo um universo de microorganismos e outros nem tanto, que cresce nos cabos e nas bóias (que mantêm tudo perto da superficie). É fascinante ver vida a surgir onde, antes do viveiro, existia apenas água com sais. Na verdade, nesse local poderíamos ter desde larvas de percebes, larvas de ouriços do mar, atuns, golfinhos e baleias, no entanto só de passagem. Quando se cria algo estático que pode servir de substrato e futura casa a magia falada anteriormente acontece e todas as larvas, que o mais certo seria encontrarem o fim do seu ciclo de vida sem nunca terem a hipótese de encontrar local onde crescer, passa a ter a oportunidade ali, mesmo no meio daquele deserto oceânico. Algas, mexilhões e minhocas passam a ter o seu papel como num qualquer recife se encontrassem e toda uma dinâmica se cria nesta nova zona de produção, aliando a produção de proteína para consumo humano com a produção natural de um recife. É espectacular ver cardumes de douradas, peixes mola e cavalas denunciadas pelos gansos patolas que atingem o alvo depois de mergulhos certeiros no mar.

    É com entusiasmo que no fim de cada ciclo vejo na cara de quem passa milhares de horas no mar a cuidar destes pequenos e saborosos organismos, um ar de satisfação. Isto porque sabem que criaram um produto de excelente qualidade e que vão proporcionar uma experiência gastronómica a alguém que tiver a sorte de comer estes pedacinhos de mar algarvio.

    Concluíndo, sim é possível alimentarmo-nos do mar de forma sustentável.

    Rodrigo Clímaco

    Rodrigo Clímaco

    Mestre em Aquicultura e Pesca e licenciado em Biologia Marinha… e amante do mar!

    Responsável do viveiro em mar aberto da Oceano Fresco

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